Crítica e Comentários sobre a série Demolidor ou “Tire a família da sala e vá assistir o Demolidor da Netflix” – por André Cruz

Antes de qualquer coisa vamos ao veredicto: A série é excelente, algo entre o primoroso e o perfeito. Agora você pode continuar lendo ou correr para assistir a série (o que recomendo), pois daqui em diante tudo se resumirá a meras opiniões e polêmicas e nada afetará a conclusão acima. Mas sigamos para os que ficaram… A  Netflix/ Marvel fizeram o impensável, pegaram um super herói e não se preocuparam com as crianças, adolescentes e familiares que poderiam querer acompanhar “suas aventuras” e acima de tudo não facilitaram para o público mediano. Buscaram a fonte correta, aquela que resgatou esse personagem de terceiro escalão e o elevou ao patamar de adoração pelos fãs de quadrinhos. Da mesma forma criaram agora uma série que o respeita e lhe devolve a dignidade que outrora havia sido tirada pela Fox, a mesma que jogou sua imagem na lama com uma produção infanto-juvenil, marca registrada de suas produções de super heróis e talvez por isso não tenham até hoje conseguido fazer um filme de qualidade desse gênero.

Vemos aqui o nascimento de uma nova era de heróis fora dos quadrinhos, uma era que traz a crueza e visceralidade do mundo real e não o afago com que se costuma tratar o público nesse tipo de produção. Claro que vários filmes e séries matam personagens importantes e inocentes as toneladas, muitas vezes até com crueldade, porém como em sua maioria, essas produções não exploram os dramas com profundidade, as mortes quase nunca são realmente sentidas pelo espectador, aqui não, aqui não se esconde o sangue e o peso das vítimas inocentes quando o assunto são mascarados e super poderosos… Esse também é um dos grandes trunfos da série, apesar de tratar de um personagem que tem poderes, nós nos esquecemos disso. Seus sentidos ampliados parecem apenas uma compensação e não uma vantagem, o resto fica por conta do treinamento auto imposto pelo próprio personagem. Mas o maior acerto na, minha opinião, foi a fonte a qual me referi acima, é impossível para o fã do Demolidor acabar cada episódio e não lembrar de Frank Miller. Desde o tom cru e realista até as nuances tridimensionais dos personagens. Seus dramas são reais, pois são ambientados num mundo real, ninguém escapa da angústia de estar vivo… E aqui mais uma vez ponto pra condução da série, seu Rei do Crime que foi magistralmente transportado para a TV pelo ator Vincent D’Onofrio, que nos mostra seus traumas, sua brutalidade e seu amor incondicional por Vanessa (leiam a maravilhosa Graphic novel “Amor e Guerra” de Miller e Sienkiewicz), sua interpretação nos faz em vários momentos torcer e amar o vilão, tirando aquele tom chato e infantil de certo e errado que infesta as produções de super heróis (e porque não dizer as produções Hollywoodianas), aliás temos aqui outra grata surpresa, ao tratar do mundo real é preciso eliminar o maniqueísmo, o que a série faz com primor. Temos a impressão de estar assistindo a The Wire, Breaking Bad e séries onde o “mocinho” se questiona simplesmente por seus atos serem realmente questionáveis, onde o “vilão” faz coisas “erradas”, mas nos faz pensar se não faríamos a mesma coisa em seu lugar, levando assim a nos perguntarmos se realmente existem mocinhos e vilões e qual a linha que os separa, pois nada é em preto e branco na vida. Na minha opinião, que isso fique muito claro, a série é irretocável, uma obra prima, porém preciso levantar duas polêmicas (pois caso não o fizesse isso não estaria sendo escrito por mim):

Pausa para pararem a leitura e irem imediatamente para o seriado.

Para quem não conhece: Frank Miller.

Para quem não conhece: Frank Miller.

A primeira polêmica só parecerá polêmica para os nerds, o público civil (aquele não iniciado nos quadrinhos) provavelmente verá apenas como a comparação que é, mas para um tipo bem peculiar de nerd, um tipo que resolvi classificar de: Nerd Partidário. Aquele tipo esquisito que trata sua editora preferida como trata seu time, sua religião e seu partido político. Para quem não sabe eles se auto denominam Marvéticos (ou Marvetes) e Decenautas (ou Decenetes sei lá) adoradores das editoras Marvel e DC respectivamente, para eles a minha comparação será algo próximo a heresia, mas vamos lá.  É impossível (salvo para os Nerds Partidários) não perceber as inúmeras semelhanças entre o seriado “Demolidor” e o filme “Batman o Cavaleiro das Trevas”, segundo filme da trilogia de Christopher Nolan. Nesse momento me livro de grande parte dos leitores que me odiarão “Eternamente” (bat-trocadilho)… Seria uma tarefa deveras cansativa enumerar todas as similaridades entre essas duas produções, para isso sugiro que assistam ao filme novamente (ou toda a trilogia), logo após o término do seriado, porém levantarei as questões que mais os aproxima: Primeiro e mais importante é o conceito escolhido, ambos situam-se num mundo muito próximo do nosso abordando temas mais mundanos. Outra semelhança não menos importante é ainda a presença de Frank Miller, pois sua versão desses heróis é que parece ter a balizado ambas produções. Não apenas diretores, produtores executivos e roteiristas, mas também os atores parecem ter lido a passagem de Miller por esses personagens, quem o acompanhou nos anos 80 sabe que ele deu praticamente o mesmo tratamento para ambos, suas histórias eram marcadas pela crueza do mundo real, por cidades sujas e infestadas de marginais e de policiais corruptos, também retratava a corrupção no sistema político e judiciário. O que eu particularmente gostava e admirava nas histórias desses personagens (e reconheço que parte pela ingenuidade da minha idade há época) era o esforço e a humanidade deles, nada lhes era dado, tudo tinha um preço, suas vidas eram marcadas por desgraças constantes, quando lia essas histórias tinha a impressão que era só uma questão de tempo até aparecer um Demolidor ou um Batman a qualquer momento em nosso mundo e aí está talvez a maior semelhança entre o filme e a série, nenhum dos dois tem vergonha de levar essa possibilidade a sério e até as últimas conseqüências, atores representam seus papéis como se os personagens fossem Shakespearianos (E porque não?), aos coadjuvantes é dado também o peso do mundo real, onde toda vida é importante e significativa e é assim que são tratados pelo roteiro e pelos talentosíssimos interpretes. Os ditos heróis carregam consigo o peso do mundo e principalmente de suas escolhas, nos mostrando uma obsessão que os impede de terem outra vida, (um deles ainda tenta e o outro já desistiu, porém os dois sofrem os conflitos advindos dessas escolhas), são incapazes de delegar ou esperar que terceiros cuidem do cidadão comum, mesmo porque suas cidades são infestadas de políticos, juízes e policiais corruptos e para que esses dilemas nos cheguem de forma absurdamente real, os atores defendem seus papéis de forma esplêndida e o mais importante, não parecem estar interpretando super heróis e sim homens extremamente obstinados em suas cruzadas. Outra semelhança a se ressaltar nos protagonistas é a freqüência com que precisam da ajuda de “pessoas comuns”, tornando-os mais humanos e mais próximos de nós. E como não falar do que talvez seja o grande diferencial entre essas e as outras produções do gênero: Os antagonistas, ou vilões se preferirem, são tratados também como protagonistas, acabam por nos cativar e sem percebermos estamos torcendo para eles, ouso dizer que eles são mais cativantes que os heróis e isso, por si só, é uma escolha heroica das produções que nesse momento arriscam perder a platéia mediana, dão um passo além do senso comum, que acredita num mundo dividido entre bem e mal. Deixo aqui uma grande ressalva: Não acredito ser a série em momento algum cópia do filme citado, apesar das semelhanças, muito menos inspirado nele, (mesmo porque se você quer ver outro filme de herói no mundo real, assista ao ótimo “Unbreakable”, que é anterior aos filmes de Nolan e nem por isso parece ter servido de base para eles) pois no cinema como em qualquer outra arte é impossível e irrelevante atribuir idéias a uma única fonte, o importante é o que se faz com as idéias e não de onde elas provem, acho apenas que no caso da série fizeram a mesma opção, conceitual como já disse, de colocar esses personagens em um mundo real e explorar suas possibilidades, fatalmente se deparando com os mesmos dilemas e caminhos, prova é que se trocarmos os heróis por  policiais ou agentes e substituirmos os bandidos por um serial killer e um chefe de máfia, ainda teremos duas obras de grande valor, pois seus roteiros não usam os heróis como muleta para a história ser contada, criam um filme e uma série feita não apenas para o público adulto, mas para um público adulto exigente.

E finalmente vamos a segunda e não menos polêmica comparação:

Confesse... Você nerd nunca imaginou que esse dia chegaria!!!

Confesse… Você nerd nunca imaginou que esse dia chegaria!!!

Comparemos o Demolidor da Marvel/ Netflix com a Marvel nos cinemas e na TV. Começo por dizer que acho relevante essa comparação por todos habitarem o mesmo universo (é preciso dizer universo pois temos o maravilhoso “Guardiões da Galáxia”). Quando olhamos para o universo Marvel que se estabeleceu no cinema, precisávamos até a chegada dessa série, dar um grande “desconto” para suas produções televisivas, seu Agents of Shield não emplacou, uma série que vive de tentar mostrar as conseqüências dos atos acontecidos nos filmes no mundo dos mortais, talvez por essa necessidade de aproximação não tenha conseguido em dois anos achar um tom autêntico que a tire da sombra dos filmes, não conseguindo apresentar-nos nada que o universo cinematográfico já não nos tenha mostrado mais e melhor. Quanto ao bem intencionado Agent Carter, consegue ir um pouco além e conduzir uma narrativa mais interessante, ainda que também na sombra do mesmo universo cinematográfico e aquém do mesmo, nos apresenta algumas novidades. Aparece então em cena Demolidor… Antes de qualquer coisa é preciso dizer que essa série coloca de fato a Marvel na TV, nos fazendo esquecer das anteriores e infelizmente mostrando o quão aquém elas estão da qualidade que a Marvel vem impondo em seu universo Live Action, séries que até então pareciam mais um subproduto para uma mídia menos importante, do que algo de relevância para o Universo Marvel. Feito o parênteses posso voltar a comparação inicial, a série primeiro ganha por não ser um produto mesmos importante ou menos relevante, ouso dizer (minha opinião, sem linchamentos por favor) que é a melhor coisa feita pela Marvel nessa sua empreitada fora das páginas das HQs. Acerta ao não depender dos filmes para existir, a sutileza com que se coloca dentro desse universo é importante para seu bom desempenho, apesar de estarem na mesma N.Y. esquecemos disso constantemente, algo de extrema importância para relevarmos por exemplo o porque, apesar de estar a alguns bairros de distância, Steve Rogers não apareceu na Cozinha do Inferno quando determinadas notícias ganharam toda a mídia televisiva de N.Y. Naturalmente sabemos que seria dispendioso pagar o cachê de Chris Evans, mas o que temos nós espectadores a ver com entraves burocráticos? Nos venderam um universo coeso e compartilhado, e é ai onde peca as outras produções, tendo que a todo momento aparecer com Asgardianos (nunca os principais é claro), ou reutilizar cenas do “Primeiro Vingador”, para tentar contornar o problema que eles mesmos criaram. Já a distância segura que o Demolidor se mantém o arranca desse circulo vicioso, e mostra que com ou sem universo compartilhado a série tem sua personalidade garantida. Ouso dizer que a série afetará de forma indireta também a maneira como a Marvel guiará seus filmes. Pois fica provado que dar esse passo não diminuiria seu público, pois é visível que apesar do excelente trabalho, a Marvel Studios vem se mantendo em um lugar confortável, com filmes que com apenas uma exceção, são voltados para os fãs e para o público familiar, seguindo uma linha bem ao gosto da Disney. Eis que temos agora a mão da Netflix junto da Marvel para sacudir um pouco o pó deixado pela Disney e nos entregar um material que extrapola o gênero heróis/ família e nos entrega uma obra acima de tudo artística, arranca os super heróis do mundo pop onde eles já são consagrados e os alça para um público com outras exigências. Se compararmos diretamente com o ótimo “Capitão América 2 – O Soldado Invernal”, até então única tentativa de transcender o gênero feita pela Marvel, perceberemos como um busca e o outro consegue esse intuito. Um bom exemplo são as consequências do desmantelamento da Shield que mudaram todos os rumos da série Agents of Shield (e claro todos os filmes dali em diante). Esses atos não causam tanto impacto, quanto as conseqüências dos atos de Karen Page sobre a sua própria vida e a de pessoas próximas a ela. Ambas as escolhas são válidas, mas a grande diferença e o grande passo dado por “Demolidor”, que nos aproxima de forma verossímil da narrativa, nos transporta para um mundo real onde existem seres sobre humanos e mesmo assim nos tira o conforto e aconchego de saber que no final o bem vencerá, pois no mundo real, mesmo que o chamado “bem” vença, as conseqüências e o preço é sempre muito alto. Agora vá lá, assista sem medo, mas por sua conta e risco!

“Vida longa e próspera”

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